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Ser inquilino no Rio está cada dia mais caro

Ser inquilino no Rio está cada dia mais caro

O Globo

Ralph trocou Botafogo pela Lapa, Carla continuou em Copacabana graças ao socorro do ex-sogro e Maria Paula negociou muito, para não abandonar o apartamento em que vive há 12 anos no Humaitá. Em tempos de reajustes de aluguéis que chegam a 100%, histórias como essas são cada vez mais comuns na cidade. Em especial na Zona Sul, onde os preços, como se sabe, dispararam. E somados a eles ainda é preciso arcar com altas taxas de condomínio e o IPTU, que, apesar de obrigação dos proprietários, é sempre repassado por contrato aos inquilinos. O resultado disso é que as despesas com habitação pesam cada vez mais no orçamento do carioca, como mostra reportagem de Karine Tavares publicada no Morar Bem deste domingo.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os gastos relativos à moradia têm hoje peso de 14,4% para cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Taxa acima dos 13,08% do peso médio nacional. E que só perde para os 14,9% de Brasília. A menor participação é de Belém (9,38%).

Para a pesquisadora do IBGE Irene Machado, a alta dos aluguéis tem forte influência no cálculo:

– A variação desse índice aumenta quando o reajuste dos aluguéis é muito grande. E como o IGP-M está por volta dos 10%, o peso da habitação vem acompanhando isso.

Sim, porque desde o ano passado o IGP-M – índice que reajusta a maioria dos contratos – vem apresentando taxas de dois dígitos. No acumulado de 12 meses em abril, até houve desaceleração (10,6% contra os 10,95% de março). Mas a primeira prévia de maio (0,7%) mostra alta em relação à mesma parcial de abril (0,55%).

A pesquisadora do IBGE destaca ainda o papel relevante das taxas de energia elétrica, água e esgoto no aumento do condomínio e, consequentemente, nos gastos com moradia. Em um contexto como esse, aos inquilinos, é preciso uma boa dose de paciência para negociar, e muito, como ensina o advogado Armando Miceli Filho:

– Em ano de IGP-M alto, o inquilino precisa ser habilidoso e criativo para convencer o proprietário a não aplicar o índice “cheio”. A moeda tem dois lados: quando o IGP-M é baixo, os inquilinos não topam majorar para compensar os proprietários. Mas, quando a inflação aumenta, tem troco.

A jornalista Maria Paula, surpreendida com um pedido de reajuste de 250% pelo apartamento onde vive há 12 anos, levou para a mesa de negociação até o alto valor do condomínio, o que acabou ajudando a fechar o acordo:

– Ele aceitou a aumentar o aluguel em 50%, e eu topei antecipar o vencimento de setembro para o mês de abril – explica Maria Paula.

Segundo pesquisa do Sindicato de Habitação do Rio (Secovi Rio) realizada em oito bairros da cidade, o preço do condomínio pode chegar a quase 50% do valor do aluguel em bairros como Tijuca, Méier e Jacarepaguá, onde os aluguéis são tradicionalmente mais baixos. Já na Zona Sul, onde a locação é mais cara, a proporção entre condomínio e aluguel gira em torno dos 15%. Os valores absolutos, contudo, são os mais altos.

A soma do aluguel de um dois quartos com condomínio fica em torno de R$ 2.738 em Laranjeiras. Incluindo o IPTU, esse valor aproxima-se dos R$ 2.900. Já em Copacabana, esses valores podem chegar a R$ 3.282 e R$ 3.500, respectivamente. Caro demais até para quem já vive no bairro há dez anos, como a publicitária Carla Abrahim, que, para permanecer no apartamento de dois quartos em que mora com o filho de 10 anos, precisou contar com a ajuda do ex-sogro.

– O proprietário pediu um reajuste de mais de 100%. Fiz uma contraproposta que ele não aceitou. Procurei outros apartamentos, mas todos estavam acima do meu orçamento. Cheguei a pensar em voltar para a casa da minha mãe. Mas meu ex-sogro resolveu me ajudar por não querer se afastar do neto, já que ele mora a apenas duas quadras daqui – conta Carla.

Para Leonardo Schneider, vice-presidente do Secovi Rio, o mercado vive um momento de euforia que tem sido benéfico para os proprietários, mas ele lembra, que nem sempre foi assim:

– O Rio é a menina dos olhos no momento. Então, é normal as pessoas tentarem lucrar o máximo possível, pedindo os valores que querem. E enquanto tiver gente pagando, os preços continuarão subindo. O mercado já foi dos inquilinos. Hoje, ele está nas mãos dos proprietários devido à grande procura e oferta baixa.