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Nos edifícios, topo e subsolo podem ser fontes de renda

Nos edifícios, topo e subsolo podem ser fontes de renda

Estadão

José Jorge Alves Sucena, de 67 anos, é síndico de um edifício de 15 andares na Rua Vergueiro, na Aclimação, próximo à região da Avenida Paulista. Ele conta que a localização do prédio, considerada estratégica por companhias de telefonia móvel, levou o conjunto a ser procurado, em meados do ano 2000, pela Ericsson Serviços de Telecomunicações, que pretendia instalar uma antena de celular no topo do prédio.

O síndico analisou a proposta e concluiu que o valor do aluguel da área para a instalação da antena poderia ser revertido em benfeitorias e até no abatimento da cota condominial. Segundo ele, dúvidas quanto a eventuais riscos à saúde provocados pelo equipamento ou interferências nos aparelhos domésticos foram tiradas durante a assembleia que aprovou a medida.

Informações. “Os técnicos da empresa forneceram dados e informações na assembleia em que o assunto foi apresentado. E até hoje não tivemos nenhum problema causado pela antenas”, afirma.

Antes da instalação, foram realizadas obras de reforço na estrutura do local, para garantir a segurança dos moradores. Em agosto de 2000, o condomínio assinou o contrato de locação para a instalação de gabinetes e das antenas. No ano seguinte, o espaço locado foi transferido para responsabilidade da TIM. O valor do aluguel mensal, que o síndico não revela, é reajustado anualmente pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), da Fundação Getúlio Vargas.

Como o condomínio tem apenas 27 unidades, o que resulta em um valor de rateio maior entre os moradores, ficou decidido que parte do valor de locação seria utilizada na conta ordinária, culminando com num desembolso menor pelos moradores para o pagamento da cota condominial.

De acordo com Sucena, outra parte da verba obtida com o aluguel do espaço é destinada ao fundo de reserva, para ser aplicada em serviços de manutenção e obras de melhoria, como por exemplo, pintura externa e interna e instalação de equipamentos de segurança.

O gerente de condomínios da Auxiliadora Predial, Julio Herold, diz que os condomínios podem contar com aluguel do salão de festas, das antenas, das garagens e também do apartamento do zelador para arrecadar receita extra. Ele destaca a locação de espaços no alto de prédios para companhias de telecomunicações: “Edifícios nas proximidades da Avenida Paulista, por exemplo, são bastante requisitados pelas empresas.”

Herold afirma que o aluguel pode render até R$ 6 mil mensal. Segundo ele, com a implantação da Lei Cidade Limpa (que proíbe a colocação de anúncio publicitário nos imóveis públicos e privados, edificados ou não, na capital paulista) os prédios perderam uma possibilidade de conseguir renda extra com publicidade nas fachadas.

“É bom para o condomínio, porque em razão da verba extra obtida não é preciso fazer rateio para melhorias e manutenção nas áreas comuns”, alega.

Segundo Herold, por questões de segurança e econômica, os condomínios desistiram de alugar o salão de festas para terceiros. Ele conta que algumas entidades (como associações de bairro) arrendavam esses espaços dos prédios para fazer reuniões, mas, muitas vezes, o valor do aluguel não cobria nem mesmo os custos com horas extras dos funcionários.

A terceirização de garagens também pode render um valor extra para os condomínios. “É mais comum em comerciais, mas os residenciais também alugam. É prático, fica tudo por conta da empresa que administra o local. A terceirizada explora e se responsabiliza”, conta Herold.

No entanto, ele esclarece que para qualquer tipo locação é necessário obter a aprovação da medida em assembleia e definir a finalidade da verba. A orientação da administradora é que o valor seja destinado para benfeitorias no condomínio.

“Normalmente, os condomínios só têm despesa e não receita, por isso é melhor vincular esse valor a melhorias”, diz.

Sem disputa. Assim como suas concorrentes, a empresa de telefonia Claro também aluga espaços nos telhados para instalação de antenas ou estações radiobase. A empresa informa, em comunicado, que não existe uma região mais disputada para instalar os equipamentos, mas nas zonas centrais da cidade existe mais demanda e, consequentemente, mais utilização do sistema.

O contrato tem como base o metro quadrado da área a ser utilizada, como se fosse o espaço de um terreno. “Em média, o contrato é de cinco anos, que pode ser renovável por mais cinco anos”, diz o comunicado.

De acordo com a Claro, o cálculo é feito em relação ao custo do metro quadrado na região. Já a manutenção, normalmente é feita uma visita mensal, e uma preventiva trimestral.

“A verba foi usada para reformar a fachada”

Subsíndico de um edifício comercial na Avenida Paulista, o administrador de imóveis Maurício Numa de Oliveira, de 53 anos, tem um escritório no prédio. O condomínio tem como fontes extras de renda o aluguel de espaço no telhado para alocar antenas de empresas de telecomunicações e também de uma parte ociosa do estacionamento subterrâneo.

“No final dos anos 1990, os condôminos decidiram em assembleia que as vagas disponíveis da garagem seriam alugadas para o público geral”, conta.

Desde então, o condomínio aluga as vagas que não estão sendo utilizadas. “Fechamos um contrato com uma companhia que administra estacionamentos para se responsabilizar pelas vagas que estão livres na garagem”, conta.

Oliveira esclarece que o estacionamento do subsolo do prédio tem 172 vagas que são dos proprietários dos imóveis e, quando não estão ocupadas, são utilizadas pelo valet.

O ganho com a utilização pode render até R$ 30 mil mensais para o condomínio, segundo Oliveira. O valor é revertido para reformas gerais no prédio, como pintura, acessibilidade e segurança.

Outra fonte de renda para o condomínio é o aluguel do topo do edifício para a instalação de antenas de retransmissão. De acordo com o subsíndico, atualmente o edifício tem contrato com cinco empresas de telecomunicações.

“Na laje temos a caixa d’água e a casa de máquinas do elevador. O espaço restante não comporta maquinários muito robustos, por isso fechamos contratos com empresas que têm antenas menores”, diz.

Ele não revela o valor do aluguel, mas garante que está dentro da média praticada pelo mercado. “O valor desses contratos nunca interferiu no valor da cota condominial. O dinheiro já foi usado para fazer a reforma da fachada, trocar colunas de sustentação e reparar a parte elétrica do prédio”, diz.

Em obras. Para Oliveira, reverter o valor para obras no edifício é mais simples do que usar para abater na cota condominial. Na hora de fazer uma reforma ou obra não precisa fazer rateio, pois o dinheiro dos alugueis está separado para esse fim.

O subsíndico diz que o sistema está dando “super certo” no condomínio e que aproximadamente 90% das obras realizadas desde que as locações começaram a ser feitas foram com a verba proveniente desses contratos.

É preciso saber se local suporta carga extra de peso

Para o vice-presidente da Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (Aabic), Fábio Kurbhi, as áreas de uso comum dos condomínios são espaços locáveis desde que a medida seja aprovada em assembleia.

O destino do dinheiro recebido – obras, reformas ou redução na cota condominial – também deve ser discutido e votado em assembleia. Independentemente do que vai ser locado – garagem, telhado, casa do zelador, salão de festas – é preciso prestar atenção ao que diz a lei, como isso deve ser feito e qual o quorum necessário em assembleia para cada aprovação, lembra Kurbhi.

Ele destaca, ainda, que no caso de antenas de celular é preciso fazer um estudo técnico para verificar se é possível o edifício receber uma carga extra de peso e se não haverá alteração na fachada. “Em qualquer caso, é preciso entender o que diz a lei e se tiver dúvidas, procure orientação. Tudo pode ser alugado, desde que siga a lei.”