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Filme argentino sobre males urbanos inspira paralelo entre Rio e Buenos Aires

Filme argentino sobre males urbanos inspira paralelo entre Rio e Buenos Aires

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As janelas são os olhos das construções e costumam revelar diferentes pontos de vista sobre a cidade. Assim as aberturas nas empenas de prédios são definidas no filme argentino “Medianeras”, de Gustavo Taretto, em cartaz no Rio. Numa Buenos Aires retratada como caótica e em crescimento desordenado, as janelinhas nas medianeras (as nossas empenas cegas ou laterais de prédios) são consideradas a “solução, ainda que ilegal,” para “a opressão que é viver em caixas de sapatos”, ou seja, em apartamentos cada vez menores.

À luz do filme — no qual os protagonistas Mariana e Martin, que moram em prédios vizinhos, acabam se encontrando através das janelas — o Morar Bem propôs a alguns especialistas uma reflexão sobre como vivem os cariocas em seu espaço urbano. Mesmo os mais críticos concordam: ao contrário da Buenos Aires retratada na película, o Rio é cidade na qual fatores como o clima, a forma de ser das pessoas e a geografia privilegiada tornam mais amenos os típicos problemas das metrópoles, como novas construções subindo em ritmo acelerado e falta de espaço nas moradias.

Segundo o diretor do filme, que já esteve várias vezes no Rio, os problemas urbanos da cidade em nada se parecem com os de Buenos Aires. Em entrevista por e-mail, ele acentuou ainda que as janelas nas empenas chamam sua atenção por três motivos — a necessidade de luz, de ventilação e a busca por um novo ponto de vista:

— O Rio me fascina, porque convive harmoniosamente com a natureza, e isso dá um ar mais tranquilo às pessoas. Quem tem uma só janela está condenado a um único ponto de vista, ao passo que quem abre uma janela amplia sua visão.

O superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Carlos Fernando de Andrade, é mais crítico em relação à nossa metrópole. Ele lembra que Buenos Aires cultivou muito mais seus prédios históricos do que o Rio, embora ambas tenham passado por reformas urbanas.

— Infelizmente, o princípio de preservação no Brasil nutria um profundo desprezo pela arquitetura eclética. Só se pensava em conservar o que era colonial ou imperial. Tanto que muitas construções de valor foram destruídas no Centro — analisa Andrade, lembrando que a Avenida Rio Branco tem apenas cinco prédios tombados pelo Iphan.

As medianeras cariocas surgiram a partir de 1938, quando as edificações deixaram de ser unifamiliares e passaram a ser multifamiliares.

— Nossa urbanização foi feita nos moldes portugueses, com lotes profundos e estreitos. Quando os lotes que abrigavam casas passaram a abrigar edifícios, as laterais, que já eram coladas nos lotes vizinhos, se verticalizaram — explica Andrade.

Proprietário de um quarto e sala, no Leme, o aposentado Hélio Mello adora sua janela na empena, com vista para a mata do Chapéu Mangueira. Para convencer o condomínio a mantê-la, fez um chá em casa e a apresentou à síndica e aos vizinhos. Ao jeito carioca, seu Hélio ganhou a simpatia de todos e conseguiu ficar com a abertura na parede. Outros dois condôminos, que também tinham janelas semelhantes, foram beneficiados pela decisão.

— Se perder esta janela, vendo o apartamento.

De fato, os imóveis estão cada vez menores. Segundo a consultoria Mediator, que faz pesquisas sobre habitação, o tamanho dos apartamentos no estado diminuiu, na última década, em média 13%. Só que o improviso de abrir janelas nas empenas cegas de edifícios é, naturalmente, proibido por leis municipal e federal — como o Código Civil, que prevê, porém, a construção de janelinhas de 10cm por 20cm, para ventilação.