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Falta tudo para a construção civil

Falta tudo para a construção civil

Apesar dos cabelos já grisalhos, os braços fortes do funcionário empilham sem parar os tijolos que serão carregados no caminhão e entregues até o fim do dia. No interior do forno, o calor denuncia a produção recém-finalizada. “Não estamos é dando conta de entregar todos os pedidos”, revela Sebastião Martins do Amaral, que há 10 anos trabalha na olaria localizada em São Sebastião, no Distrito Federal, e, há muitos, não lembra de tantas encomendas. A fábrica de tijolos que emprega Amaral expõe a encruzilhada em que se encontra a construção civil no Brasil. Há pelo menos meio quarto de século, o setor não se depara com uma demanda tão aquecida. Por outro lado, começa a enfrentar gargalos em questões cruciais como a produção de materiais básicos (tijolos e cimento) e a falta de mão de obra qualificada.

O gerente da olaria em São Sebastião, Valério Batista, confirma a impressão de Amaral e conta que a demanda no primeiro semestre do ano foi “sem precedentes”. Atualmente, os clientes de Batista têm que aguardar pelo menos 60 dias para a entrega do material. “Tenho capacidade de fazer aqui 180 mil tijolos por mês e estou com a produção de dois meses vendida”, relata em um tom que mistura orgulho com alguma preocupação.

A olaria, que funciona em esquema familiar — Batista é gerente e filho dos donos —, reajustou o preço do milheiro em 18,42%, de R$ 380 para R$ 450 em maio, contratou mais dois funcionários e comprou um novo caminhão para atender as entregas. Entretanto, terá um dilema para enfrentar no segundo semestre.

Nos anos anteriores, 30% da produção dos primeiros seis meses era estocada para reforçar as vendas da segunda metade do ano, historicamente mais fortes. “O mercado vem aquecido desde janeiro. Este ano não teve como (fazer estoque). Se tivéssemos produzido 200%, teríamos entregue. Estamos sem estoque e não sei como será até o fim do ano”, disse Batista. O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Paulo Safady Simão, reconhece que existem algumas deficiências no setor, mas garante que não falta material. “O que está acontecendo, em alguns casos, é um atraso na entrega, mas as empresas estão produzindo de acordo com a demanda.” Apesar de admitir que os atrasos prejudicam o andamento das obras, Simão destaca que a indústria já está reagindo. “Há esses problemas, mas não estamos parados. O setor está se movendo. Algumas empresas já estão aumentando suas plantas”, diz.

Gás na inflação

O atraso nas obras não é o único ônus do superaquecimento do mercado. A elevação de preços dos materiais, natural ante à escassez, ameaça a construção de moradias para a chamada baixa renda que, beneficiada pelos incentivos do governo — como o lançamento do programa Minha Casa, Minha Vida —, é a parcela da população que mais contribui para o aumento da demanda por imóveis. “O problema começa na hora de comprar o terreno. Um pedaço de terra em uma região periférica (no DF), que valia R$ 3 mil até o ano passado, hoje não pode ser comprado por menos de R$ 9 mil”, observa Antônio Izaias da Silva, pequeno construtor responsável, atualmente, por um empreendimento de 36 casas populares em Planaltina de Goiás, a 50km de Brasília.

Os imóveis de Izaias devem ser vendidos pelo valor médio de R$ 70 mil a unidade. Ele, no entanto, já esestima um aumento de, no mínimo, 15% no preço de custo de cada unidade em função do incremento nos dispêndios. No berço dessa elevação, está a dificuldade em conseguir o material de construção e ter que adquirir insumos em locais cada vez mais distantes. “Tive que ir atrás de fornecedores em Alexânia, Anápolis, Unaí e outras cidades da região. Em muitos lugares, simplesmente eles não estão aceitando encomendas”, conta. De acordo com o construtor, em casos extremos, como em alguns produtores de Unaí, só são aceitos pedidos para outubro.

Neste ano, os principais insumos para a construção sofreram vários reajustes na ponta. As estruturas de ferro aumentaram três vezes no ano — 4% em março, 2,5% em abril e 15% em junho —, cenário que deve piorar, uma vez que as siderúrgicas já anunciaram que vão repassar os aumentos do minério de ferro. Os preços da areia e da brita subiram, em média,10%, e o dos tijolos, até 30%. Para tentar minimizar a pressão dos custos, as empresas do setor estão se organizando em cooperativas de compra, que têm maior capacidade de negociação com os produtores. “A ideia é ter uma em cada estado e a adesão das construtoras é livre”, afirma o presidente da CBIC. Essas associações já funcionam, atualmente, nos estados do Ceará, de Goiás, Minas Gerais e Rio Grande do Norte.

Fonte: ClipImobiliário