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Convivência entre vizinhos exige regras

Convivência entre vizinhos exige regras

Você se dá bem com seu vizinho? Manter um relacionamento amistoso com o morador do lado, ou em frente à sua casa, é imprescindível para cultivar amizades e evitar futuros atritos. Em condomínios a situação é ainda mais singular, onde a união entre a vizinhança é decisiva para fortalecer interesses em comum, num lugar onde se dividem regras, espaços e vivências.

Em um prédio, por exemplo, encontramos moradores que gostam de música alta e os que têm cachorros barulhentos. Mas há também os que prezam pelo silêncio, os mais sistemáticos, que buscam seguir à risca todas as regras. Assim, como garantir a harmonia entre pessoas que se comportam de maneiras tão diferentes e dividem a área comum?

Uma estimativa da unidade regional do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi), de Bauru, aponta que existem aproximadamente 500 condomínios na cidade, entre comerciais, residenciais e mistos, que são responsáveis por abrigar milhares de pessoas. E, a partir de algumas atitudes e comportamentos, é normal que surjam desavenças e desentendimentos. No entanto, alguns casos podem chegar até a polícia.

O tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4º BPM/I (Batalhão de Polícia Militar do Interior) de Bauru, diz que muitos dos registros policiais envolvendo ameaças ou até lesões corporais resultam de desinteligência entre vizinhos.

Ele aponta que a maioria dessas ocorrências é desencadeada por motivos fúteis, como som alto e em horário inadequado, por exemplo. E essas brigas acabam tomando tempo da polícia em detrimento a ocorrências de maior importância do ponto de vista do combate á criminalidade. “Por causa de atritos entre vizinhos, a polícia precisa se deslocar até o local, sendo que há, muitas vezes, ocorrências mais graves acontecendo e precisando do atendimento dos policiais”, frisa o comandante.

Os motivos que causam implicância são diversos. Em residências, por exemplo, moradores “mal educados” se aproveitam da lixeira do vizinho para despachar o seu lixo. Outros, deixam seu animal de estimação fazer suas necessidades fisiológicas na calçada da residência ao lado. Som estridente, crianças fazendo bagunça e barulho de animais também fazem parte da lista de reclamações, principalmente em condomínios.

O barulho

“O barulho é campeão em críticas”, informa a secretária do Conselho dos Síndicos de Bauru, Ângela Kiyoko Hiramatsu Kakazu, que é síndica de um edifício residencial no Jardim América. Animais em apartamentos se tornam outro problema enfrentado pelos síndicos. “Em prédios que não há proibição deles, sempre surgem reclamações”, afirma.

Ocorrências que surgem de dentro dos próprios apartamentos também desencadeiam desavenças entre a vizinhança. “Um simples vazamento, por exemplo, pode interferir no apartamento do vizinho e causar atritos”, aponta Kakazu.

Conforme ela observa, algumas situações acontecem porque a maioria dos condôminos e inquilinos desconhece as regras previstas no regulamento interno do local onde moram. “Eu chego até a fazer um kit de ‘boas-vindas’ para novos moradores, contendo o regulamento. Nele, costumo destacar os pontos mais importantes a serem seguidos”, conta a síndica.

Kakazu ainda destaca que o papel do síndico deve ir além de ser o “cobrador” das boas atitudes e cumprimento de regras. “Ele deve passar a ser visto como um agregador, aquele que promove festas, reuniões e encontros entre os moradores para estimular a boa convivência entre eles e reforçar a união”, enfatiza.

O transtorno do lixo

Quem passa defronte à casa da agente de locação Vanessa Castelo Branco verá como a falta de educação e bom senso resulta em mau cheiro, bagunça e indignação. Ela conta que em seu bairro precisa conviver com pessoas que despacham os lixos de suas residências em uma única lixeira, que fica em frente a uma escola pública abandonada, próximo a sua moradia. Indignada, ela resolveu denunciar a situação ao JC.

A lixeira, que fica na quadra 1 da rua Benedito Florentino de Moraes, no Núcleo Bauru I, acumula vários sacos de lixo durante vários dias, superando sua capacidade. “Aí vêm os cachorros, bagunçam as sacolas de lixo e espalham os dejetos e sujeira pela minha calçada. Sobra pra eu limpar tudo”, diz Branco, inconformada.

No meio do lixo, ela chega a ter que se deparar com fraldas e absorventes usados. “Fora que o lixo espalhado atrai insetos e outros tipos de animais que vivem com a sujeira, como ratos, que já vieram pra dentro da minha casa”, conta a moradora. A sujeira espalhada, segundo Branco, dificulta até o trabalho dos garis de limpeza.

Indignada com a situação, Branco pede a colaboração da vizinhança para evitar transtornos. “Cada morador deve arcar com uma lixeira e tomar conta de seu próprio lixo. Não é justo que a frente da minha casa tenha que ficar exposta a toda essa confusão”, frisa. “Ou então, basta ao poder público resolver a situação”, indica.

“Etiqueta” do bom relacionamento inclui diálogo

A consultora em etiqueta social Glorinha Ortolan afirma que só é possível humanizar um condomínio com regras de comportamento que prezam pela boa educação, diálogo, tolerância, simpatia e responsabilidade. “Entrar no elevador e cumprimentar as pessoas já é um bom começo”, aconselha a consultora.

Além de seguir à risca o estabelecido pelos regulamentos de cada condomínio, pequenas atitudes, como o tom de voz e certos gestos de boa vizinhança garantem um dia-a-dia mais harmonioso. “O modo de falar com aqueles que nos relacionamos e com as pessoas que trabalham no local demonstram a educação dos moradores. Não se pode deixar de usar as ‘palavras mágicas’: por favor, obrigado, com licença”, orienta Ortolan. Ainda na visão da consultora, aceitar as diferenças e as opiniões dos outros é importante para uma convivência harmônica.

A atenção, para quem divide espaços de uso comum em prédios, como garagem, salão de festas e piscina, deve ser redobrada, a fim de evitar situações desagradáveis. “É muito ruim chegar de viagem ou do supermercado, com o porta-malas lotado e encontrar a garagem ocupada”, exemplifica Ortolan.

Animais e crianças requerem também cuidados. “Os donos devem ser responsáveis pelos seus animais. As crianças devem ser educadas não só para viver em casa, mas também na comunidade, aprendendo que a vida tem limites”, frisa Glorinha Ortolan.

A conselheira Ângela Kiyoko Hiramatsu Kakazu, do Conselho dos Síndicos de Bauru, enfatiza que é importante ainda procurar conhecer os costumes dos vizinhos, a fim de preservar a amizade. “Assim, um pode ajudar o outro”, salienta.

No entanto, nem só de obediência às regras e boa educação depende um bom relacionamento entre vizinhos. As construções de condomínios precisam ser melhores planejadas para evitar situações que desagradam. Conforme indica Kakazu , existem falhas em construções que deixam uma área de lazer muito próxima a um apartamento, por exemplo. “Um morador do residencial em que sou síndica costuma com frequência reclamar quando a churrasqueira é utilizada por outras pessoas, que atrapalham porque ficam conversando muito próximo ao seu apartamento, gerando assim uma situação desconfortável”, exemplifica a síndica e conselheira Kakazu.

Desrespeito

Há comportamentos entre moradores que resultam até em sua expulsão. É o que nos conta a esteticista Patrícia Marchesini Buzacarini, 20 anos, que mudou-se de Barra Bonita para poder estudar em Bauru há alguns anos. Ela mora em um residencial localizado no Jardim Brasil e convive com estudantes, em sua maioria universitários. A jovem diz que para garantir a boa convivência com os outros moradores é mais do que necessário que se estabeleçam certas medidas.

Por desrespeitar algumas delas, Buzacarini relata que uma moradora que residia em seu prédio chegou a ser expulsa pelos vizinhos. “Os moradores tomaram uma decisão conjunta com o síndico e determinaram sua expulsão, já que havia muitas reclamações por causa do barulho, som alto, principalmente durante a madrugada”, conta Buzacarini.

Para evitar constrangimentos como esse, Buzacarini busca seguir todas as regras. “Um cuidado básico que se deve ter é não falar alto, já que as paredes entre os apartamentos são coladas”, exemplifica. “É preciso também respeitar o horário e evitar som alto em períodos inapropriados”, acrescenta.

Ela ainda conta que em seu condomínio há várias regras rígidas que estipulam penalidades aos residentes. Uma delas é em relação ao lixo. Segundo Buzacarini, quem deixar de colocar os sacos de lixo no local correto pode levar até multa de um salário mínimo. Há outras medidas que proíbem, por exemplo, o morador de jogar fios de cabelo pela janela ou até de varrer sujeira para fora de seu apartamento.

Fonte: LicitaMais